Fui
chamado de ‘bairrista’ por só tratar de Cordel Baiano neste espaço. Antecipo os
objetivos no perfil do aplicativo, não me sinto discriminado. No PEPLP-UFBa (
Programa de Estudos e Pesquisas da Literatura Popular) e posteriormente na
Comissão Baiana de Folclore, ambos orientados por Doralice Alcoforado, professora
e pesquisadora, aprendi que a Bahia não tem seu Cordel reconhecido na mesma
proporção que a sua qualidade literária e histórica. Acredito que a canonização, tanto de homens ‘santos’ como de
obras de arte, quem determina é o povo, o público, o leitor. Sociedades,
agremiações, confrarias, clubes, academias, críticos e editores servem mais
para fortalecimento daquela prática a qual se propõem a ‘preservar, valorizar,
difundir e divulgar’. Não quero aqui meter o bedelho onde não estou sendo
chamado, mas a quem caberia esta responsabilidade? Ao poeta, ao
sindicato, ao governo, às bibliotecas?
Por aqui, Rodolfo Coelho Cavalcante, lutou
muito nos anos 40 a 70 pela organização da classe cordelística na Bahia e no
Brasil, com amigos fundou a OBPLC – Ordem Brasileira dos Poetas de Literatura
de Cordel, dirigida posteriormente por Bule-Bule e Paraíba da Viola, com sede
em uma barraca que virou ponto de apoio, vendas e apresentações na praça do
Elevador Lacerda. A poeta Zuzu Oliveira dirige a Ordem atualmente em busca de
renovação e novos apoios pois a sede foi retirada da praça pela prefeitura em
2013 e até o momento não foi substituída ou realocada.
Visitei
a ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel no Rio de Janeiro. Conheci
o poeta Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da instituição; sua esposa Mena,
a Madrinha dos Poetas. Adquiri uma obra prima, 100 CORDÉIS HISTÓRICOS SEGUNDO A
ACADEMIA BRASILEIRA DE LITERATURA DE CORDEL, em 2 volumes, tamanho 30x20cm, com
as capas em fac-símile de todas as
obras, patrocinada pela Petrobras e
publicada em 2008, “destinada a preservar parte significativa da cultura
brasileira” conforme Francisco da Silva Nobre; organização e curadoria do
próprio Gonçalo.
Por
ser este um blog escrito por um
baiano com o intuito de debater a nossa produção, procurei a produção baiana na
referida antologia. São 100 poemas escritos por 41 poetas de 9 estados do
Norte/Nordeste. Destes, apenas um é da Bahia: “O ENCONTRO DE LAMPIÃO COM
DIOGUINHO”, de Antonio Teodoro dos Santos, ‘O garimpeiro”, natural da cidade de
Jaguarari. A coleção conta com a produção de 15 paraibanos, 11 pernambucanos, 3
potiguares, 2 alagoanos, 2 cearenses, 1 paraense, 1 piauiense, 1 sergipano e 4
com naturalidade desconhecida. Esta edição “é um marco histórico e indelével
para a ABLC, para as letras brasileiras e para a própria latinidade”, palavras
do Mestre Gonçalo que endosso. Ele antecipa que ‘não foi justo na visão de
muitos e que foi difícil escolher apenas 100 de um rico acervo de cerca de 13
mil”.
A
equipe organizadora mostra a importância histórica e literária destes poemas
nas apresentações constantes no livro. A curadoria optou por incluir apenas
autores mortos “pois eles não têm outro processo para reeditar seus trabalhos”,
e que nasceram entre 1848 a 1928. Organizar uma antologia não deixa ninguém
felicíssimo, muito pelo contrário, a exclusão de alguém pode causar atritos
artísticos e pessoais entre os envolvidos e seus interessados. Sem tartamudear,
mas respeitando os critérios, senti falta de Cuíca de Santo Amaro, que se
encaixaria neste recorte. O brincante pernambucano, Antonio Nóbrega, em seu
texto de apresentação, lembra a figura icônica do poeta baiano nas imagens de
Pierre Verger na revista O Cruzeiro como um destaque nacional.
A nossa Literatura de Cordel também tem seus ‘bestsellers’, seus cânones, seus
autores consagrados, assim como todo e qualquer gênero literário com seus clássicos,
pastiches, auto-ajudas, fantasias e amores. Falta-nos, para nos equipararmos à
literatura oficial, uma classificação por escolas e/ou estilos; temos
classificações temáticas, mas não seria difícil estabelecer paradigmas para uma
taxonomia mais erudita. ‘Mas o que temos com isso?’
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Eu, Gonçalo, Walkíria e Mena. |
Os poetas populares seriam sempre populares ou
populistas? As instituições cumprem o seu papel de estabelecimento de normas e
padrões. Busco uma poesia com “sangue novo e elementos deveras salutares”, como
diria o grande Antonio Vieira, de Santo Amaro da Purificação, com seu Cordel
Remoçado, uma blasfêmia para uns e arte para tantos outros.
Gonçalo
Ferreira, a princípio criticado pelos próprios colegas, foi vítima de diversas
chacotas versadas em desafios de repentistas na conceituada Feira de São
Cristovão, berço da cultura nordestina no Rio de Janeiro. Os populares não
precisam de organização, consagração, conservação e motivação? Sua perseverança
e persistência demonstraram que estava no caminho certo, a Academia não seria
apenas um celeiro de egos, mas de preservação, divulgação e estímulo à leitura
e à produção do cordel. Ele relata
com satisfação as críticas que sofreu quando iniciou a campanha para a fundação
do órgão, que seria melhor juntar-se com Drummond, Vinícius de Moraes, Castro
Alves, Gonçalves Dias e outros clássicos, era o conselho que recebia.
A representatividade da ABLC como entidade de classe é notável no Brasil
pela adesão da maioria dos poetas em atividade. O critério para escolha dos membros é “por meio
de votação em escrutínio secreto” e que 25% das cadeiras é para os não
residentes no Rio. No panteão da ABLC figuram pessoas jovens e maduras, com
vasta e pequena produção poética, com muita experiência de estrada e iniciantes
iniciados na própria Academia. É uma variedade de estilos e temas que encantam
os leitores, amantes e praticantes desta arte que vem atravessando os séculos
com pecha de ‘literatura barata’, sem valor canônico, mas que tem demonstrado
em estudos sua importância literária e influência nos autores considerados
consagrados em toda a literatura universal.
A
pesquisadora, Ana Carolina Carvalho, declarou ao O Globo em 2015, num artigo
sobre o Cordel Carioca, objeto de seu estudo, “que apesar de não terem retorno
financeiro, (os poetas) insistem em
escrever. É como se eles se sentissem cotidianamente desafiados a versificar o
mundo.” Neste mesmo artigo, do jornalista Emiliano Urbim, Moraes Moreira
relembra, na ocasião de sua posse na ABLC, a influência de seu irmão Zé Walter
na sua caminhada no mundo do Cordel. Moraes temia os preconceitos, foi bem
aceito e visto como prestigiado divulgador do Cordel.
Das
40 cadeiras disponíveis na ABLC, Rodolfo Coelho Cavalcante é o patrono de uma
delas. Atualmente 5 cadeiras são ocupadas pelos baianos Bule-Bule, Marco
Haurélio, Moraes Moreira, Varneci Nascimento e Zewalter Pires. Não faço aqui
campanha por minha inclusão numa cadeira, sou do Clube do Grouxo Max e não é permitido
filiação a agremiações que nos aceitem como sócios. Sugiro aqui o nome de
Franklin Maxado ‘Nordestino’ à próxima vaga na ABLC pela importância e
qualidade literária e gráfica das suas publicações, pois também é xilógrafo.
Não sei se ele tem interesse, mas para o Cordel da Bahia seria um prestígio
necessário para a difusão de nossa produção com os que lá estão.