“Minha história pessoal começa em Feira de santana, pois lá
nasci. Pra ser preciso, a 15 de março de 1943.
Sou descendente de portugueses, mas me considero um elemento tipicamente
brasileiro porque, em minhas veias, correm todos os sangues formadores ou, pelo
menos, que contribuíram para a formação da nacionalidade brasileira. Minha mãe,
por exemplo, parece uma inglesa e ela se orgulha muito disso. Só não me consta
que tenha parentesco com japonês. Mas acontece o seguinte: chego num lugar e
sempre tem alguém que me acha com cara de judeu ou de árabe ou de índio ou até
mesmo de espanhol. Quer dizer, meus antepassados portugueses já vieram
misturados.” Franklin Maxado em: A Noite dos Coronéis.
FRANKLIN MAXADO NORDESTINO
NA BOCA DOS OUTROS
Orígenes Lessa, na orelha do livro Cordel, Xilogravura e
Ilustrações, escrito por Franklin, publicado em 1982, pela Codecri, no Rio de
Janeiro: “ O formato era o dos folhetos comuns. Número de páginas, em geral o
mesmo. Estrofe de seis ou sete versos, como os outros. Os versos, de sete pés.
Temática, geralmente a mesma. Igual em quase tudo. Mas logo se viu: aquele não
ficara na escola primária. A vida lhe dera oportunidades que nem sempre seus
outros colegas, alguns fabulosos, tinham tido. Tivera ginásio, universidade,
era até bacharel.
Para se identificar melhor, talvez, com seus novos
companheiros, ele pegou até o ch do sobrenome e o botou pra escanteio:
continuou Machado, mas com X, e seu nome de briga (ou de poesia) passou a ser
Maxado Nordestino. Mostrava assim que preferia o povão do mercado à clientela
que o atazanava no escritório de advocacia e mesmo aos colegas de jornal em
Salvador.
Ele vinha pra valer. A praça é dos poetas. Lá estava ele
vendendo seus versos, perfeitamente integrado na imagem tradicional de poeta do
povo. Faz, publica, vende poesia. E estuda poesia. Já autor de mais de 70
folhetos, incorpora-se á mais extraordinária manifestação da cultura popular no
Brasil. Ninguém mais homem do cordel. Ninguém mais consciente de sua opção.
Daí, há dois anos, um dos grandes sucessos editoriais da Codecri: O que é
literatura de cordel? de Maxado Nordestino, um depoimento que ficará clássico
nesse campo. Daí os anos de pesquisa que Maxado Nordestino dedicou a uma das
decorrências dessa literatura popular (decorrência econômica e logo a seguir
realidade artística espantosa em muitos casos): a gravura em madeira,
inesperado caminho para criaturas mal saídas do anonimato e do não-alfabeto,
que nos surpreendem com eventuais obras primas. Fazendo-se xilógrafo ele mesmo, como muitos outros, Maxado quis
saber quem eram os outros, quantos eram, como tinham começado e onde, se faziam
xilogravura e desde quando. O presente livro é a resposta a essas e a mil
outras perguntas ao longo dos últimos anos, lendo, viajando, formulando
questões. Escrever sobre a xilogravura em nossa literatura de cordel, de agora
em diante, ninguém o poderá fazer sem conhecer as pesquisas, descobertas e informações
deste livro notável.”

Arievaldo Viana, na apresentação da reedição do livro: O que
é cordel na literatura popular, também de Franklin Maxado, da editora
Queima-bucha, lá de Mossoró e lançado em 2011, diz: “ Foi necessário que
surgissem pessoas como Franklin maxado, homem culto, com formação acadêmica,
mas profundamente ligado ao universo do cordel, para que alguns disparates
começassem a ser refutados de forma eficaz e contundente. Inicialmente, o
próprio Franklin sofreu a rejeição de alguns estudiosos do meio acadêmico da
mesma maneira como foi rejeitado por alguns colegas de cordel. um deles,
Jotabarros, chegou mesmo a publicar um
libelo contra o seu ingresso na profissão de poeta e folheteiro, intitulado
“Doutor, o que faz em cordel?”, no que Franklin rebateu prontamente com o
folheto “Doutor faz em cordel, o que cordel fez em Doutor!” Hoje, além de
Franklin Maxado, temos nomes envolvidos com o estudo do cordel que também estão
diretamente ligados à sua cadeia produtiva, como é o caso de Marco Haurélio,
Gonçalo Ferreira, Moreira de Acopiara, Aderaldo Luciano, dentre outros.”

Antonio Amaury, no livro Franklin Maxado – Biblioteca de
Cordel, publicado em São Paulo pela editora Hedra, em 2007, relembra: “ No
tempo em que as nuvens negras da ditadura militar começaram a ser afastadas do
nosso firmamento, com o início da abertura no rumo da democracia, vamos
encontrar Franklin Maxado como candidato a Presidente do Brasil pelo Partido
Kordelista, assim mesmo, com K, como pregava na sua reforma ortográfica.
Encontrou de pronto um defensor de peso na figura do ilustre
poeta e intelectual patrício Carlos Drummond de Andrade.
Levantando bem alto a bandeira da sua candidatura, ele
escreveu crônica de página inteira em jornais de circulação nacional e elogiou
a criatividade do poeta-candidato.”

Mark Curran, em Retrato do Brasil em Cordel, Ateliê
Editoriail, lançado em 2011, comenta: “Como
já se disse, um momento menor mas significativo da história brasileira teve
lugar pouco tempo depois: o símbolo do orgulho nacional e de sua superioridade
no futebol, a Taça Jules Rimet, foi roubado de uma vitrine no centro do Rio de
Janeiro. O episódio e as circunstâncias que rodearam esse roubo produziram uma
dos poemas mais vitriólicos da época,
escrito por Franklin Maxado em São Paulo: O Brasil Entrega o Ouro e Ainda Baixa
as Calças ( O Ex-País do Futebol). O poeta está mais do que zangado ou triste
(desculpem a expressão, mas não há melhor maneira de expressar do que a frase
usada pelo povo): “está puto da vida!” Segundo o poeta, o governo mandou fazer
uma cópia da taça roubada, de ouro como a original, mas por m ourives de fora
do Brasil! Isso simboliza, para Franklin Maxado, poeta liberal, hippie e
constetador, um desprezo da nossa técnica e um atestado de nossa “incomptência”,
e, mais que tudo, uma afirmação da dependência em que está o Brasil em relação
ao Primeiro Mundo. O vate toca realmente na psique nacional e no papel que o
futebol representou em 1970, além do fato de o orgulho nacional tornar-se um
produto de um jogo levado a sério demais, talvez, na verdade, “o único jogo” do
país do Brasil.”

Cid Seixas, na revista Légua&meia, Ano 4,nº 3, 2005: “Franklin
Machado é um ator-camaleão da cultura brasileira. Múltiplo nas suas artes e
apartes no cotidiano da nação, como se lê no texto-depoimento a seguir e nas
gravuras de cordel que ilustram este número de Légua&meia; jornalista,
poeta, cantador e contador de cordel, com mais de duzentos folhetos editados
pelos descaminhos do Brasil. Bacharel em Direito e em Jornalismo pela Universidade
Federal da Bahia, foi diretor do Museu Casa do Sertão (por ele idealizado) e do
Museu Regional de Arte, de Feira de Santana.
No início dos anos 70 bombardeou a vida da cidadecom
peripécias e estripulias que o embarcaram no último pau-de-arara, com destino a
São Paulo. Ao desapear, no centro da metrópole, ali mesmo, na Rua Augusta,
levantou sua tenda dos milagres. Viveu como poeta de cordel e artista popular
durante os delirantes anos da ditadura, sem dispensar estrepitosas intervenções
na política nacional, incluindo a candidatura à presidência da República das
bananas e baionetas.
Como artista múltiplo, juntou ao nome civil do
estudioso o nome de guerra que ganhou nas bandas do Sul: Maxado Nordestino. Nos
seus 40 anos de reinações e andanças pelo mundéu de Deus e do Diabo, o filho
pródigo está fincado em Feira de Santana, semeando a terra e as artes. Louvado
seja.

Guido Guerra, no livro A noite dos coronéis, Volume II,
publicado pela Alba e ALB, em 2005, define assim o nosso poeta: “Ele
escandalizou Feira de Santana, não por ter casado com uma negra, uma atriz de
teatro, mas por ter quebrado os padrões dessa cerimônia. Projetou uma cerimônia
ecumênica, com uma bênção católica e elementos constitutivos do candomblé. Levou
o cordel para São Paulo e lá cantou Terra de Lucas. Na sofisticada Rua Augusta,
abriu um ateliê de cordel: o Nordeste foi sua matéria prima e seu sonho de
consumo – Rodolfo Coelho Cavalcante, Zé Limeira, o Cego Aderaldo – tantos outros
enriqueceram seu acervo permanente. Através de suas palavras, de suas
lembranças de juventude, por vezes com um travo de amargura, de ressentimento,
o leitor mergulha também numa tocante história de amor.”
Possui 96 títulos catalogados na Coleção Folhetos de Cordel
do Acervo Bibliográfico da FUNCEB, Egba, 2006.
Foi acusado de ser o escritor por trás do cordelista, K. Gay Nawara, um pseudônimo
jocoso, cacófato pornográfico, imitando a língua japonesa. Folhetos desbocados
ao estilo de Cuíca de Santo Amaro começaram a aparecer nas feiras de livros e
de artesanato em São Paulo, Rio de Janeiro, Feira de Santana e Salvador nos
anos 70, assinados por este poeta. O autor se escondeu muito bem, os compradores
não revelaram a fonte e Franklin Maxado sempre nega quando perguntado.